Os microplásticos já foram encontrados em quase todos os tecidos humanos estudados até hoje. Por isso, uma pesquisa recente chamou a atenção de cientistas e do público em geral. Um suplemento à base de bactérias mortas, batizado de Qi601, foi testado pela primeira vez em humanos. Segundo os resultados, ele pode limitar a absorção de microplásticos e nanoplásticos pelo corpo. Este artigo explica, em detalhes, como o suplemento funciona, quem conduziu a pesquisa e por que essa descoberta importa para a saúde intestinal. Além disso, serão apresentados dados de outros estudos sobre contaminação por micro e nanoplásticos, para que o leitor entenda o contexto completo do problema.
A pesquisa foi conduzida por Eva Berkes, cofundadora da empresa biofarmacêutica Quorum Innovations, sediada na Flórida. Sua equipe desenvolveu o postbiótico Qi601 a partir da bactéria Limosilactobacillus fermentum. Primeiro, a bactéria foi cultivada em laboratório. Em seguida, ela foi morta pelo calor, e suas paredes celulares foram coletadas. Essas paredes celulares possuem superfícies rugosas, que atraem partículas de plástico. Dessa forma, os microplásticos ficam “grudados” ao postbiótico, em vez de serem absorvidos pelas células intestinais.
O que são microplásticos e nanoplásticos, afinal?
Antes de entender o suplemento, é importante diferenciar os termos. Microplásticos são fragmentos de plástico com menos de 5 milímetros de comprimento. Eles são gerados, principalmente, pela degradação ambiental de resíduos plásticos maiores. Já os nanoplásticos são ainda menores, com menos de 0,001 milímetro. Por serem tão pequenos, os nanoplásticos conseguem atravessar barreiras biológicas que normalmente bloqueiam partículas maiores. Consequentemente, eles penetram membranas celulares e se acumulam dentro das células do intestino.
Essa diferença de tamanho é crucial. Enquanto os microplásticos costumam ser expelidos pelo organismo, os nanoplásticos entram na circulação sistêmica com mais facilidade. Assim, eles podem se acumular no fígado, nos rins e até no cérebro. Estudos recentes, publicados na revista Frontiers in Toxicology, mostraram algo alarmante. Amostras de cérebro humano coletadas em 2024 apresentaram 50% mais fragmentos de plástico do que amostras coletadas em 2016. Em alguns casos extremos, o tecido cerebral chegou a ser composto por 0,5% de plástico, em peso.
Como o suplemento Qi601 age contra os microplásticos
O mecanismo do Qi601 é, na verdade, bastante simples. As paredes celulares da bactéria morta funcionam como uma esponja rugosa. Nos experimentos de laboratório, células intestinais humanas foram expostas a nanoplásticos, com e sem a presença do postbiótico. Quando o Qi601 não estava presente, os nanoplásticos se acumulavam dentro e na superfície das células. Por outro lado, quando o suplemento foi adicionado, significativamente menos nanoplásticos foram visualizados nas células. Isso sugere que o postbiótico “capturou” as partículas antes que elas fossem absorvidas.
Além dos testes em células, a equipe de Eva Berkes realizou um experimento com participantes humanos reais. Os voluntários mastigaram goma de mascar comercial, que libera diversas partículas de microplásticos na saliva. Eles continuaram mastigando até coletar 10 mililitros de saliva. Depois, o experimento foi repetido, mas com uma diferença importante. Desta vez, 10 miligramas de Qi601 em pó foram colocados na boca dos participantes, após cinco segundos de mastigação.
Resultados do primeiro teste humano com o postbiótico
Os resultados chamaram atenção da comunidade científica. Em um dos participantes, foram contadas 2.152 partículas de plástico flutuando livremente, após a mastigação sem o suplemento. Quando o Qi601 foi adicionado, esse número caiu para apenas 185 partículas. Ou seja, houve uma redução expressiva na quantidade de microplásticos livres na saliva. Esses dados foram publicados na plataforma bioRxiv, sob o identificador doi.org/rf3k, permitindo que outros pesquisadores revisem e repliquem o estudo.
Segundo Eva Berkes, esse resultado representa a primeira demonstração de que os microplásticos podem ser efetivamente ligados por um agente mitigador, em pessoas reais. Isso é diferente de estudos anteriores, que foram realizados apenas em células ou em animais. Portanto, esse avanço é considerado um marco. Ainda assim, vale destacar que a pesquisa está em fase inicial, e mais testes são necessários antes que o Qi601 chegue ao mercado como suplemento comprovado.

Por que os microplásticos preocupam tanto os cientistas
Embora ainda não se saiba, com certeza, se os microplásticos causam doenças específicas, sua presença no corpo humano já é considerada preocupante. Eles foram detectados em praticamente todos os órgãos já estudados, segundo pesquisas independentes. Por exemplo, um estudo conduzido pela Portland State University analisou 182 amostras de frutos do mar consumidos por humanos. O resultado foi impressionante: 180 dessas amostras continham partículas de plástico, incluindo espécies como salmão-real, robalo-preto e camarão-rosa.
Curiosamente, os organismos menores da cadeia alimentar, como camarões e arenques, apresentaram concentrações mais altas de partículas. Isso acontece porque eles se alimentam de zooplâncton, e acabam confundindo os fragmentos de plástico com alimento. Dessa forma, os microplásticos se tornam onipresentes na base da cadeia alimentar marinha. Consequentemente, esses contaminantes chegam até o prato dos consumidores, muitas vezes sem que ninguém perceba.
O papel dos sistemas microfisiológicos na pesquisa de toxicidade
Para entender melhor como os nanoplásticos afetam o corpo, cientistas têm recorrido a uma tecnologia chamada Sistemas Microfisiológicos, também conhecida como “órgão em um chip”. Diferente das culturas celulares tradicionais em 2D, essa tecnologia simula condições reais do corpo humano. Por exemplo, ela reproduz o fluxo de fluidos, a peristalse intestinal e os gradientes de oxigênio. Assim, os resultados obtidos tendem a ser mais relevantes para a fisiologia humana.
Modelos tradicionais, como culturas celulares 2D e testes em animais, apresentam limitações importantes. Eles costumam falhar em replicar a complexidade do trato gastrointestinal humano. Além disso, diferenças entre espécies dificultam a extrapolação de resultados de animais para humanos. Por isso, os sistemas de “intestino em um chip” têm ganhado espaço na pesquisa sobre segurança alimentar. Esses chips incorporam estruturas semelhantes a vilosidades intestinais, células produtoras de muco e sensores de resistência elétrica transepitelial (TEER), que monitoram a integridade da barreira intestinal em tempo real.
Comparação entre os modelos de teste de toxicidade
A tabela abaixo resume as principais diferenças entre os modelos de avaliação de toxicidade utilizados atualmente pela ciência:
- Relevância biológica: os Sistemas Microfisiológicos (MPS) oferecem alta relevância, pois incluem muco, microbiota e células imunológicas humanas; modelos 2D são limitados; modelos animais são variáveis, devido a diferenças entre espécies.
- Comunicação entre órgãos: os MPS permitem simular múltiplos órgãos conectados; modelos 2D não possuem essa capacidade; modelos animais apresentam comunicação sistêmica, mas com limitações de tradução para humanos.
- Ambiente dinâmico: os MPS simulam fluxo e peristalse; modelos 2D são estáticos; modelos animais possuem ambiente dinâmico, porém não controlado.
- Insight mecanístico: os MPS oferecem alto detalhamento, graças a sensores em tempo real; modelos 2D e animais têm insight limitado.
- Throughput (capacidade de teste): modelos 2D são estabelecidos e de alta capacidade; MPS ainda estão emergindo; modelos animais possuem baixa capacidade, além de restrições éticas.
Esses dados evidenciam por que os cientistas buscam alternativas mais precisas aos modelos tradicionais. Afinal, decisões regulatórias importantes dependem da qualidade dessas informações.
Nanomateriais na indústria alimentícia: benefícios e riscos
Além dos contaminantes ambientais, como os microplásticos, a indústria alimentícia utiliza nanomateriais de forma intencional. Eles são adicionados para melhorar textura, prolongar a validade e aumentar a biodisponibilidade de nutrientes. Por exemplo, o Dióxido de Titânio (TiO₂, ou E171) é usado como agente clareador em doces e produtos lácteos. Já o Dióxido de Silício (E551) atua como antiumectante em produtos em pó, como café instantâneo.
Entretanto, esses mesmos nanomateriais podem representar riscos à saúde. Partículas menores que 100 nanômetros, especialmente as menores que 50 nanômetros, conseguem atravessar barreiras epiteliais. Dessa forma, elas podem se acumular no fígado, nos rins e no cérebro. Além disso, a alta reatividade de superfície dessas partículas pode gerar espécies reativas de oxigênio (ROS). Isso, por sua vez, provoca inflamação crônica e danos ao DNA das células.
Vale destacar o caso do E171, que ilustra bem esse dilema regulatório global. Devido a preocupações com genotoxicidade, a União Europeia baniu o uso do E171 em 2022. Por outro lado, o Japão reafirmou a segurança do aditivo em 2023. Essa divergência mostra como a ciência ainda não tem consenso total sobre os riscos reais desses materiais, o que reforça a importância de mais pesquisas.
Impacto no eixo intestino-fígado-cérebro
Um dos aspectos mais preocupantes dos nanoplásticos é sua capacidade de afetar múltiplos órgãos, não apenas o intestino. Uma vez absorvidos, eles entram na circulação sistêmica e podem alcançar o fígado, primeiro órgão responsável pela metabolização de substâncias estranhas. Estudos com plataformas de múltiplos órgãos em chip demonstraram que os nanomateriais podem induzir hepatotoxicidade dose-dependente. Isso se manifesta por meio do aumento de TNF-α e redução da viabilidade celular no fígado.
Além do fígado, os rins também são vulneráveis, já que são responsáveis pela eliminação dessas partículas do organismo. Igualmente relevante é o chamado eixo intestino-cérebro. Pesquisas utilizam neurônios derivados de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSC) para estudar como sinais originados no intestino, e vesículas extracelulares liberadas após exposição a nanopartículas, podem influenciar vias neurotróficas e a atividade sináptica no cérebro. Assim, entende-se por que o acúmulo de plástico no tecido cerebral tem preocupado tanto os pesquisadores.
Dicas práticas para reduzir a exposição a microplásticos no dia a dia
Enquanto suplementos como o Qi601 ainda estão em fase de testes, algumas medidas práticas podem ajudar a reduzir a exposição diária a microplásticos. Confira algumas recomendações baseadas em evidências científicas atuais:
- Prefira água filtrada em vez de água engarrafada, já que garrafas plásticas liberam microfibras com o tempo.
- Evite aquecer alimentos em recipientes de plástico no micro-ondas, pois o calor acelera a liberação de partículas.
- Reduza o consumo de goma de mascar convencional, já que ela libera microplásticos diretamente na saliva, como demonstrado no estudo de Eva Berkes.
- Opte por roupas de fibras naturais, como algodão e linho, em vez de tecidos sintéticos, que soltam microfibras na lavagem.
- Utilize filtros específicos para máquinas de lavar, capazes de capturar microfibras plásticas antes que cheguem ao esgoto.
- Dê preferência a embalagens de vidro ou papel, sempre que possível, em vez de embalagens plásticas descartáveis.
Essas atitudes simples, quando adotadas em conjunto, podem reduzir consideravelmente a exposição cumulativa aos microplásticos. Além disso, elas contribuem para a redução do descarte de plástico no meio ambiente, o que beneficia toda a cadeia alimentar, incluindo os frutos do mar consumidos por humanos.
O papel da inteligência artificial na toxicologia alimentar
Outro avanço relevante nessa área é o uso da inteligência artificial (IA) para analisar dados complexos de toxicidade. Como os sistemas microfisiológicos geram grandes volumes de dados, a IA ajuda a identificar sinais sutis de toxicidade que passariam despercebidos por pesquisadores humanos. Além disso, algoritmos de IA podem extrapolar resultados de curto prazo, obtidos em experimentos rápidos, para prever efeitos de exposição crônica e prolongada.
Essa integração entre biotecnologia e inteligência artificial representa o futuro da pesquisa em segurança alimentar. Afinal, quanto mais precisos forem os modelos preditivos, menor será a necessidade de testes em animais. Consequentemente, isso acelera o desenvolvimento de soluções, como o próprio Qi601, testadas pela equipe de Eva Berkes na Quorum Innovations.
Limitações do estudo e próximos passos da pesquisa
É importante destacar que o estudo do Qi601 ainda é preliminar. Os resultados divulgados fazem parte do primeiro teste realizado em humanos, e os dados publicados na bioRxiv ainda não passaram por revisão por pares completa, algo comum em publicações desse tipo de plataforma. Por isso, mais estudos, com amostras maiores e acompanhamento de longo prazo, serão necessários. Igualmente importante será entender se a redução de microplásticos na saliva se traduz, de fato, em menor absorção sistêmica ao longo do tempo.
Ainda assim, a pesquisa conduzida por Eva Berkes e sua equipe na Quorum Innovations representa um passo significativo. Ela demonstra, na prática, que é possível desenvolver estratégias de mitigação para reduzir a absorção de microplásticos pelo corpo humano. Esse tipo de inovação se soma a outras tecnologias, como os sistemas microfisiológicos, no esforço conjunto de tornar nossa relação com o plástico menos prejudicial à saúde.
O que esperar do futuro da pesquisa sobre microplásticos
Nos próximos anos, é provável que surjam mais suplementos e estratégias voltadas à mitigação de microplásticos no corpo humano. Enquanto isso, a padronização de protocolos para os sistemas microfisiológicos segue sendo um desafio importante para a comunidade científica. Sem protocolos padronizados, fica mais difícil comparar resultados entre diferentes laboratórios e obter aprovação regulatória para novos produtos, como o Qi601.
Além disso, a confiança pública será fundamental para o avanço dessas tecnologias. Diferente de medicamentos, cujos riscos costumam ser aceitos em troca de benefícios que salvam vidas, os benefícios de aditivos alimentares nanoestruturados, como texturas melhoradas, são frequentemente vistos como menos essenciais. Por isso, o nível de evidência exigido para comprovar sua segurança tende a ser ainda mais rigoroso.
Onde os microplásticos mais se escondem em casa
Muitas pessoas associam microplásticos apenas ao mar ou aos frutos do mar. Contudo, esses contaminantes também estão presentes em diversos itens domésticos, muitas vezes sem que percebamos. Tábuas de corte de plástico, por exemplo, liberam pequenos fragmentos a cada corte de faca. Da mesma forma, esponjas de cozinha sintéticas se desgastam com o uso e soltam microfibras na água da pia. Além disso, produtos de higiene pessoal, como alguns esfoliantes antigos, ainda podem conter microesferas plásticas.
Outro ponto pouco discutido é a poeira doméstica. Estudos indicam que uma parte considerável da poeira acumulada em ambientes fechados é composta por fibras sintéticas, provenientes de tapetes, cortinas e estofados. Assim, a exposição a microplásticos não acontece apenas pela alimentação, mas também pela inalação e pelo contato direto com a pele. Por isso, pequenas mudanças de hábito em casa podem complementar os efeitos de suplementos como o Qi601, ainda em fase de testes pela equipe de Eva Berkes.
O contexto regulatório global sobre plásticos e nanomateriais
A discussão sobre microplásticos não se limita ao campo da ciência básica. Governos ao redor do mundo têm debatido, cada vez mais, políticas específicas para reduzir a produção e o descarte de plástico. Organizações internacionais, incluindo agências ligadas à Organização das Nações Unidas, vêm pressionando por acordos globais sobre poluição plástica. Enquanto isso, países como os que compõem a União Europeia têm avançado em restrições a aditivos nanoestruturados, como demonstrado no caso do E171.
Entretanto, a regulação de contaminantes ambientais, como os microplásticos, é mais complexa do que a regulação de aditivos intencionais. Afinal, esses fragmentos não são adicionados propositalmente aos alimentos; eles chegam até nós por meio da degradação ambiental de resíduos plásticos. Consequentemente, a solução exige políticas públicas amplas, que envolvam desde a redução da produção de plástico até o incentivo a alternativas biodegradáveis. Nesse cenário, tecnologias como o Qi601 surgem como uma camada extra de proteção individual, mas não substituem políticas ambientais mais amplas.
Perguntas frequentes sobre microplásticos e o suplemento Qi601
É um postbiótico desenvolvido pela Quorum Innovations, a partir de paredes celulares da bactéria Limosilactobacillus fermentum, morta pelo calor.
Não. O produto ainda está em fase de pesquisa, com apenas um teste inicial realizado em participantes humanos.
Até o momento, não se sabe, com certeza, se os microplásticos causam condições de saúde específicas, embora sua presença no corpo seja motivo de preocupação entre cientistas.
Eles entram, principalmente, pela ingestão de alimentos contaminados, água engarrafada, além da mastigação de goma de mascar e da inalação de partículas no ar.
Ainda não existe uma forma comprovada de eliminação total. No entanto, pesquisas como a do Qi601 buscam reduzir sua absorção contínua pelo organismo.
E você, já havia ouvido falar sobre postbióticos capazes de reduzir a absorção de microplásticos? Quais mudanças você pretende adotar na sua rotina para diminuir o contato com esse tipo de contaminante? Você acredita que suplementos como o Qi601 poderão, futuramente, se tornar parte da rotina de cuidados com a saúde intestinal? Deixe sua opinião e suas dúvidas nos comentários, para continuarmos essa conversa e trocarmos experiências sobre como reduzir a exposição diária a microplásticos!

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